Notícias e Novidades

“A política tributária do Estado não fomenta o desenvolvimento”

publicado em julho 7, 2018

Foto: Denilson Paredes

Prosseguindo com a série de entrevistas com empresários e pessoas de destaque na sociedade local, hoje o Jornal A TRIBUNA traz uma entrevista com o contador e empresário João Fernandes Zuffo, 51 anos, casado, pai de dois filhos, que decidiu vir para Rondonópolis no ano de 1996, atrás de uma oportunidade para crescer na vida, o que, segundo ele, foi a decisão mais acertada que já tomou.

Nascido na pequena cidade de Anta Gorda, no Rio Grande do Sul, ele veio para cá aos 25 anos e aqui trabalhou, estudou e se formou no curso de Ciências Contábeis, no campus local da UFMT. Montou seu escritório, a Zuffo Assessoria Contábil, que no próximo mês da agosto está completando 17 anos, tendo construído uma sólida carreira como empresário e contador. Aqui também conheceu aquela que se tornaria sua esposa, Jaqueline Franco Zuffo, neta do maestro Marinho Franco, personagem histórico da cidade, e aqui também ele teve seus dois filhos.

Segundo o empresário, ele decidiu vir para cá após ter ouvido falar muito da vocação de Rondonópolis para o progresso e aqui ele se apaixonou pela cidade. “Eu estava de férias e vim para cá no período do carnaval. Foi no carnaval do Caiçara que vi que aqui era o paraíso e decidi que queria ficar. Daqui mesmo eu liguei para o meu trabalho e pedi demissão e só voltei para o Sul a passeio”, conta, com entusiasmo.

Aqui, conseguiu inicialmente um emprego como contador no Sindicato Rural, onde trabalhou por muitos anos, além de ter trabalhado em uma grande construtora da cidade antes de ser instigado a montar seu próprio escritório de contabilidade, que começou de forma bem humilde e hoje tem inúmeros clientes, um quadro de 38 funcionários e já analisa abrir uma filial na região Norte do Estado.

A TRIBUNA – Hoje há um grande número de profissionais da contabilidade na cidade? Isso atrapalha ou há espaço para todo mundo?

João Fernandes Zuffo – Existem mais de 200 escritórios, mas tem espaço para todos, porque há inúmeras empresas chegando. Apesar da circunstância pouco favorável, nós já conseguimos vários novos clientes este ano que chegaram agora na cidade. O governo agora está implantando o eSocial, que é um sistema que unifica todas as obrigações fiscais, previdenciárias e trabalhistas das empresas, que vai exigir muito do profissional contador e das empresas. Isso vai ser um divisor de água, porque o contador vai ter que fazer cursos, se especializar para entender essa nova sistemática. O que já não é simples vai ficar muito mais complexo e, consequentemente, as empresas que não obedecerem ou não cumprirem vão ter que pagar multas bastante pesadas. Nossa profissão está nessa transição: ou você se especializa, ou você está fora do mercado.

A TRIBUNA – Como está o desempenho econômico do setor que você faz parte? O setor foi muito afetado pela crise?

João Fernandes Zuffo – Tudo é uma cadeia. Se a empresa vai bem, os funcionários, fornecedores e prestadores de serviços, que é o meu caso, também vão bem. E em épocas de crise, acontece a redução de custos. O empresário chega tanto para os colaboradores quanto para os prestadores de serviços terceirizados e propõe redução nos honorários, adequação a uma nova situação econômica e todo mundo se ajeita, reduz isso, reduz aquilo… Eu mesmo, como empresário, tive que fazer isso, porque é um efeito dominó. Se um empresário X pede para reduzir os honorários, obviamente que eu também preciso me adequar a essa nova situação. Dentro do escritório, eu e meus colaboradores tomamos algumas medidas para minimizar nossos custos. Refizemos o nosso planejamento e a gente conseguiu passar pelo período mais turbulento, que foi 2017. Neste ano, as coisas mudaram e já estamos num outro cenário.

A TRIBUNA – Vocês trabalham com empresas de todos os segmentos da economia? Como observa o momento econômico dos outros setores?

João Fernandes Zuffo – Nós temos observado que alguns segmentos evoluíram, outros ainda continuam em dificuldades. Por exemplo: o setor dos transportes, hoje, para as transportadoras, com essa nova sistemática adotada pelo governo, está difícil. Para quem trabalha no agronegócio, com a produção de grãos, a elevação dos preços dos fretes está levando a uma retração desse segmento. Esses setores estão tendo dificuldades. Mas o governo já sinalizou que lá para agosto deve rever essa tabela de fretes, que está impraticável. Não está sendo bom para ninguém. O governo exagerou no patamar do reajuste dos fretes.

A TRIBUNA – A cidade tem tido muitos problemas com a segurança? Como o senhor vê essa situação e o que fazer?

João Fernandes Zuffo – Tudo é questão de recursos. O policial, para mim é um herói, pois ele ganha muito mal para sair de casa e arriscar a vida dele pela nossa segurança. E as leis protegem os bandidos, pois se um policial tiver que exercer a profissão de forma mais enérgica, a Justiça vai dizer que houve excesso. Os policiais andam de carro mil, um carro que não tem motor, não tem potência, não tem nada. Como é que vão correr atrás dos bandidos? Os bandidos andam de fuzil, e a polícia até hoje ainda anda de 38. É preciso aparelhar melhor as nossas polícias. Eu acho que precisa urgente nas viaturas uma blindagem, pelo menos nos vidros. Para proteger o mínimo os policiais. Hoje, a polícia enxuga gelo, pois eles prendem e o Judiciário solta. Em países como os Estados Unidos, onde estive recentemente, ser policial é uma das profissões mais honrosas. Lá, ele tem mais credibilidade que um juiz. O que o policial fala é levado a sério e a lei é cumprida. E o policial anda num carro de 500 cavalos de potência.

A TRIBUNA – Como avalia a política tributária e fiscal do Governo do Estado? O que precisa melhorar?

João Fernandes Zuffo – A política tributária do Estado não fomenta o desenvolvimento. Ela sobretaxa as empresas. Para uma empresa se instalar no estado, ela passa por muitas dificuldades, primeiro pela burocracia, que é muito grande. E segundo pela carga tributária. O negócio se torna inviável. Várias empresas saíram de Mato Grosso de 2016 para cá e foram para outros estados, onde elas têm incentivos. O governo precisa mudar essa política dele de só querer arrecadar cada vez mais em cima das mesmas empresas sem dar nenhum incentivo. Isso está errado. Tem que aumentar a base de arrecadação, diminuindo a carga sobre cada uma.

A TRIBUNA – A situação da criação da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR) está bem encaminhada. Acha que vai ser positivo?

João Fernandes Zuffo – Com certeza! Desde quando comecei a cursar a faculdade que a gente queria ser desvinculado de Cuiabá. As decisões eram todas tomadas lá e nunca éramos prioridade e o que sobrava lá, as migalhas, vinha para a gente. Uma das coisas que me motivaram a ficar por aqui foi justamente a universidade, pois lá onde eu morava não tinha e meu pai não tinha condição de pagar para eu estudar fora. Ser independente vai fazer com que a gente possa ampliar a universidade, trazer novos cursos para cá e com isso, a cidade ganha. Eu vejo até hoje famílias mandando filhos fazer faculdade fora, enquanto poderíamos implantar os cursos aqui e essas pessoas não precisariam sair daqui. E a nossa UFMT tem um nível de ensino muito superior que a maioria das particulares, de muitas inclusive de renome nacional.

A TRIBUNA – Já que estamos em ano eleitoral, na sua opinião, qual é o perfil que deve ter um político para representar a classe empresarial?

João Fernandes Zuffo – O político ideal teria que parar de pensar em si próprio, em obter vantagens próprias e começar a pensar um pouco no povo. É o povo que elege o político, é o povo que confia nele. Só que hoje não existe coisa mais rentável que a política. É uma distorção. Ele tem a vantagem disso, daquilo, sem falar na corrupção, que aí já vamos para outro nível. Eu, em eleições passadas, abri espaço no meu escritório para os políticos, inclusive foram vários políticos lá conversar com os meus funcionários. Eu abri esse espaço. Nessa eleição, eu não vou mais abrir espaço para nenhum político não, pois não fiquei contente com a experiência. O político está extremamente desmoralizado.

A TRIBUNA – Nós estamos no segundo ano de mandato do prefeito Zé Carlos do Pátio (SD). Como o senhor avalia esse período e quais as suas expectativas com relação a esse governo?

João Fernandes Zuffo – O nosso atual prefeito até que é uma pessoa bem intencionada, mas ele é muito mal assessorado. Mas isso é uma coisa inerente a ele, que sempre é muito centralizador. Ele tem que nomear o secretário não por questão política, mas por competência, para resolver o problema. Ele não é uma pessoa que não trabalha. Ele trabalha até demais, tanto é que teve problemas de saúde recentemente. Só que ele desperdiça energia, porque trabalha da forma errada. Ele teria que ter uma equipe competente e aí ele poderia mudar essa cidade, pois o recurso ele tem.

A TRIBUNA – Na questão de urbanismo e mobilidade urbana, o que pode ser feito para melhorar a cidade na sua opinião?

João Fernandes Zuffo – Rondonópolis começou lá na beira do Rio Vermelho e foi se expandindo de forma desordenada. É o oposto de cidades próximas, como Primavera do Leste, por exemplo, que é uma cidade muito bem preparada e planejada urbanisticamente falando. Como Sinop, Sorriso e outras também são. Então, a cidade precisaria de um Plano Diretor para poder ordenar e resolver esses estrangulamentos. Uma das coisas que causa um transtorno grande é a falta de sincronismo nos semáforos da região central da cidade. Outra coisa é que, se você está numa rua que é preferencial, daí a pouco ela deixa de ser preferencial. É uma coisa absurda que a gente só vê em Rondonópolis, e olha que eu já andei esse Brasil quase todo.

A TRIBUNA – O que o senhor espera para o futuro da cidade?

João Fernandes Zuffo – Eu pretendo continuar aqui e daqui expandir meus negócios, mas isso aqui sempre foi e continua sendo uma terra de oportunidades. Apesar da situação política, do contexto financeiro do país e tal, aqui tudo que se planta cresce e é uma cidade que continua crescendo, gerando oportunidades para todos. É questão de trabalhar com seriedade e empenho que tudo vai para frente. É uma cidade que ainda vai ser próspera por muitos anos.

Fonte: Jornal A Tribuna – Rondonópolis-MT